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Crônica
do Mês |
NÔMADES
Sérgio Pinheiro Lopes
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| Dezembro
1998 |
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Ao longo dos anos cruzei com vários nas mais diferentes
circunstâncias. O João Au-Au, por exemplo, era um tipo que faz parte
da minha infância e adolescência. Era um sujeito magro e alto e
morava na esquina da Argentina com a Brasil. Tinha um carrinho de
mão, desses que se usam em obra e tinha um séquito de cachorros
que andavam com ele. Alguns presos ao carrinho, outros soltos. Era
uma visão estranha vê-lo andando pelas ruas com aquele bando de
cachorros ao redor. Uma outra vez, aos dezoito, na noite antes de
ir para os EUA pela primeira vez, saí para dar uma volta a pé. Na
Rocha Azevedo com a Lorena um mendigo puxou conversa e eu contei
que ia viajar e para onde. Ele começou a falar em inglês, muito
bom por sinal, e não foi só, falou em francês e em italiano também.
Conselhos estranhos em várias línguas, tudo ao mesmo tempo. Um fim
de tarde em um parque de Boston, muitos anos mais tarde, patos na
lagoa, veleiros preguiçosos, pessoas fazendo o jogging e esquilos
se escondendo atrás das árvores, um sujeito parou na minha frente,
apontou para os patos e disse solene: A América está morta. Eles
não sabem ainda, mas a América está morta. E seguiu seu caminho.
Vai ver está mesmo. A Saffron Gagné, uma mulher fugindo da própria
vida e acenando para mim de uma esquina qualquer em Chicago. Viajamos
dois meses pelas estradas entre Denver e a tal esquina, e até hoje
não sei direito quem ela é. Uma tribo de nômades. Solvitur ambulando.
As coisas se resolvem andando. Ou como disse Rimbaud em uma carta
da África: O que estou fazendo aqui?
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