Eu estava preso no tráfego de um sábado de manhã em uma avenida da periferia da cidade quando, casualmente, olhei para o
outro lado da avenida e o vi pela primeira vez. Por entre os ônibus e caminhões, meio encoberto pela fumaça dos escapamentos, vislumbrei
um Soldado Romano. Olhava fixo para o chão, meio cabisbaixo, como que alheio a tudo que o cercava. Aquela visão me fascinou, parecia saído
do Suetônio ou das novelas do Robert Graves. Com muita dificuldade, fiz o retorno e, meia hora depois, parei em frente ao terreno onde,
em meio a leões, ninfas, a Vênus de Milo, anões de jardim e querubins, estava o enigmático Soldado Romano. Agora, já parecia que o seu olhar
era meio irônico, com cinzas nos lábios como que rindo de si mesmo, por se encontrar assim em tão improvável companhia.
Encontrava-me pela primeira vez no inquietante Jardim de Pedra, o antigo ateliê do escultor Gildo Zampol, companheiro de Brecheret e Emendábile
no Liceu de Artes e Ofícios, colaborador dos célebres Di Giusti e Armando Zago e discípulo do grande Eugênio Prati.
Um grande escultor paulista, com trabalhos por todo o país e por toda a cidade. Com bustos de Getúlio Vargas e Tancredo Neves, esculturas
representando o Tempo, a Vênus Grega e o Gladiador. Das suas mãos saíram desde um Monumento ao Soldado Constitucionalista de 1932 até um projeto
revolucionário para a Praça da Sé em São Paulo.
Isso foi um estímulo à minha curiosidade. Depois disso fiz vários passeios em São Paulo para visitar as obras de Gildo Zampol. Nos cemitérios,
parques e praças onde sua obra está exposta, passei muitas horas boas e muitos momentos de reflexão.
Acabei trazendo para casa o busto do Soldado Romano com seu sorriso de cinzas e olhar de sombras e uma coluna dórica para apoiá-lo.
Posso vê-lo da minha janela neste instante, guardião da memória desta cidade de tantos artistas. Está lá, silencioso e atento entre as plantas
do meu pequeno jardim; um soldado finalmente devolvido a sua honrosa condição de sentinela. Já não parece irônico agora o seu misterioso sorriso
e seu olhar de sombras, parece olhar para mim desde tempos muito antigos, impassível e eterna testemunha da Roma Antiga, de um jardim imóvel e
de uma cidade que já foi grandiosa.
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